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XXI Encontro Brasileiro do Campo Freudiano

ARGUMENTO DO XXI ENCONTRO BRASILEIRO DO CAMPO FREUDIANO

 ADOLESCÊNCIA, A IDADE DO DESEJO

 Rômulo Ferreira da Silva

O sujeito não se constitui de forma definitiva, ele se redefine a cada momento. É isso que Lacan(1) enfatiza com o termo estádio para se referir à experiência do humano com sua imagem. A constituição do sujeito não se resume a estágios a serem concluídos e ultrapassados. Sendo assim, na tentativa de dar conta de sua existência, estúpida e inefável, o homem coloca a céu aberto o imponderável do desejo em sua “insondável decisão do ser”(2). Nas constantes modificações, adaptações e reedições, há, no entanto, algo do gozo que permanece como marca indelével.

A imagem articulada à palavra define a condição humanizante, sexuada, seccionada da condição propriamente animal. Portanto, a sexualidade não é natural.

O advento da puberdade com suas modificações anatomofisiológicas, atualiza a pergunta fundamental sobre o que é o sujeito no mundo.

As alterações que ocorrem no corpo são experimentadas de maneira singular e constatamos que a entrada na adolescência, a partir da puberdade, produz uma reviravolta na posição do sujeito. Trata-se de uma nova apreensão imaginária do corpo. É também uma retomada de posição diante da palavra, uma outra decisão, não tão insondável.

Freud apresenta a chegada da puberdade como uma luta interna para tentar abandonar as identificações sólidas dadas pelo pai ideal e a busca de novas identificações oferecidas pela cultura. Período de rebeldia e ambivalência.

Jacques-Alain Miller articula a adolescência com o Tempo Lógico de Lacan(3), ao estabelecer a puberdade como o instante de ver, que antes era marcado pelos ritos de passagem. Do corte que provocava o aparecimento de uma metáfora da puberdade, abriu-se um intervalo que é o tempo para compreender e que chamamos adolescência.

O instante de ver pode ser desencadeado por inúmeros fatores, desde a percepção das “metamorfoses do corpo” até a intervenção do outro social que incide sobre o sujeito deslocando-o de seu lugar de criança.

No tempo para compreender é retomado o resultado da operação metafórica que forneceu uma significação ao sujeito. Essa retomada se dá juntamente com uma demanda de reconhecimento de que o sujeito fala por si e não mais repete o discurso dos pais.

É o tempo para se desligar da autorização dos pais, para se pronunciar e se responsabilizar pelos seus atos diante do Outro. Como no caso dos três prisioneiros proposto por Lacan, a cada movimento do sujeito ocorre a manifestação do Outro que reedita sua conclusão. Há, então, a asserção de uma certeza antecipada, ou seja, o momento de concluir. Porém, Miller diz que esse intervalo, a adolescência, “dura e se eterniza”(4).

Sendo a adolescência o tempo privilegiado para novas identificações, as tecnologias e as redes variadas de comunicação pluralizam e diversificam as ofertas, apoiadas na globalização e no avanço do capitalismo. A reviravolta vivida na adolescência se intensifica e a reelaboração da posição diante do desejo sexual não se restringe mais à bipartição de gêneros, mas às escolhas que se apresentam em permanente mudança.

Os novos sintomas, advindos das tentativas de desligamento da palavra dos pais pululam. Eles surgem de formas cada vez mais radicais, prontos para serem confundidos com sintomas psicóticos. A estabilização da significação induzida pela articulação do imaginário e do simbólico torna-se mais difícil. Nesse sentido, assistimos ao prolongamento da adolescência e à proliferação das posições débeis. O adolescente se dedica ao fazer e se distancia do ato. Mais grave ainda é quando o ato suicida se impõe.

O desejo se dilui diante do imperativo de gozo veiculado pelos pequenos comitês de ética que surgem e o que observamos é um aumento da volição: “eu quero, eu quero, quero!!!!!”

As “múltiplas escolhas” poderiam parecer ter um efeito libertador. Porém, a ambivalência retorna do Outro em direção ao adolescente. Pode ocorrer a permissividade de um lado e, de outro, uma rigidez exacerbada. As manifestações dessa ambiguidade se espalham.  A proposição da diminuição da maioridade penal, por exemplo, mobilizou vários setores da sociedade, contra e a favor, dando mostras da amplitude pendular entre um extremo e outro.

O recente movimento de ocupação das escolas em São Paulo também demonstrou tal ambiguidade, tanto dos adolescentes quanto do Outro social.

A vacina anti-HPV, ministrada ainda na puberdade, a distribuição de preservativos e cartilhas que enfatizam vários aspectos de uma possível vida sexual ativa, não são acompanhadas de programas que discutem de forma satisfatória a gravidez precoce e o aborto. Ou seja, se o resultado de tais ações não surtem os efeitos esperados, é sobre o adolescente que recaem as consequências, cobradas rigorosamente.

Ele passa de um registro a outro sem poder contar com o reconhecimento de seu desejo. A família e o Estado agem como adolescentes ao afrouxarem as regras de conduta desde a infância sem se responsabilizarem por suas ações. Os conselhos tutelares tentam suprir essa falta, mas acabam por “judicializar” o que deveria ser do âmbito da educação, da saúde, da assistência social, e principalmente, da família.

A adolescência passou a ser melhor tolerada pelos adultos, por estarem, eles mesmos, submetidos a um ideal de indeterminação arrastados pela dificuldade em estabelecer a responsabilidade sobre seus atos. Preferir ser uma “metamorfose ambulante” foi um hino para muitos da geração que hoje se ocupa da criação, educação e formação dos adolescentes. Podemos dizer que estamos na época da adolescência generalizada.

A partir da falha da verticalidade do Nome-do-Pai, os adolescentes recorrem às formações de grupos que, sob um significante Um qualquer da cultura, estabelecem normas rígidas de funcionamento. Há um aumento da segregação e da intolerância, consequentemente, a violência avança.

O que podem os psicanalistas em relação à adolescência hoje?

O despertar do desejo sexual faz com que o corpo grite, de novo, e desse grito pode-se extrair soluções autênticas para o mal-estar de cada um. A psicanálise pode estar presente em vários dispositivos que acolham as soluções encontradas por eles diante dos impasses. Cabe aos analistas aprenderem com essas soluções extraindo da parafernalha de S1, aquele que seja singular e que mantenha aberta a via do desejo.

Muitos adolescentes buscam a análise a partir dos tropeços com o real e das falhas nas tentativas de dele se defenderem. Talvez o analista esteja em melhor posição de fazer a função de pai na contemporaneidade por saber que não o é.  O analista deve estar à altura de sustentar a autenticidade do ato do adolescente apostando no adulto que há nele.

A puberdade existe como fato biológico e a adolescência é um sintoma inventado pela contemporaneidade. Como o sintoma é o que temos de mais real, como tal, vamos nos haver com ele no XXI Encontro Brasileiro de Psicanálise da EBP.

Colocar o foco nesse tema significa apostar que as mudanças ocorridas na adolescência podem antecipar o futuro da clínica psicanalítica. E além disso, teremos a oportunidade de articular o ultimíssimo Lacan ao discutirmos a adolescência orientados pelos conceitos de sinthoma, escabelo e falasser.

A psicanálise busca a diferença absoluta. A partir da experiência analítica com o adolescente, estaríamos mais perto desse fim pelo fato de a relação com o Nome-do-Pai estar mais fluida?

(1) LACAN, J. O estádio do espelho como formador da função do eu. In Escritos.

Zahar: Rio de Janeiro, 1998, pág. 97.

(2)LACAN, J. De uma questão preliminar a todo tratamento possível da psicose. In

Escritos. Zahar: Rio de Janeiro, 1998, pág. 555.

(3) Amadeo de Freda, Damasia. El adolescente Actual. Nociones clinicas.

UNSAMEDITA: Fundación CIPC, 2015. pág. 10.

(4)Amadeo de Freda, Damasia. El adolescente Actual. Nociones clinicas.

UNSAMEDITA. Fundación CIPC, 2015, pág. 10.

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